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A Ficção e o poder de fazer sonhar • Escrever bem #6

Existem muitos tipos/modalidades de Ficção, por isso esse assunto será abordado em mais de um post neste blog.

A Ficção é o que o próprio nome já diz, ou seja, é um tipo de narrativa baseada em fatos imaginários, irreais, ficcionais, criada a partir da imaginação do autor. Portanto, as narrativas de Ficção são aquelas que têm o poder de nos fazer sonhar, rir ou tremer… dependendo do tipo de história contada por cada um deles, os autores.

Quem nunca roeu as unhas durante a leitura de uma história de suspense? Quem nunca se acabou de chorar em meio às páginas de uma trágica história de amor? Quem nunca viajou, com espanto, para universos muito diferentes do nosso? Não há limites para a arte de imaginar e justamente por isso podemos dizer que não há limites para o alcance da Ficção. Mesmo que, p. ex., a história narrada aconteça em uma cidade que já conhecemos, a trama certamente nos levará a trilhar novos caminhos, a observar novos detalhes e a desenvolver, talvez, um novo olhar a respeito de tudo que antes pensávamos já conhecer inteiramente. Essa é, aliás, uma das funções da literatura, senão sua maior função: fazer pensar.

A Ficção permite aos escritores expandirem sua imaginação e ideias, assim como permite aos leitores expandirem seu pensamento crítico e sua visão de mundo. Desse modo, Ficção (alimentando a imaginação) e Não ficção (alimentando a informação), por assim dizer, são os dois pilares que dão vida e sustentam o hábito da leitura — hábito imprescindível, que, acredito firmemente, deve fazer parte da vida de todas as pessoas.

Antes de falar sobre os principais tipos de narrativas de Ficção, deixo aqui alguns trechos de livros que fazem parte do meu universo literário há muito tempo. Espero que gostem e, caso não conheçam alguns deles, sintam-se estimulados a aventurar-se por suas páginas simplesmente maravilhosas.

Até o próximo post!

Exemplos de narrativas de Ficção

Quarup – Antonio Callado

“Nos poucos dias que o separavam do dia em que devia viajar para o Xingu, Nando viveu numa febre. Francisca, bruscamente retirada, era sinal da nova e severa aliança. Em matéria de vida mística, Nando não tinha sequer entrado na fase humilde da purgação. Jamais chegaria à iluminação e nunca, realmente nunca, à união, mas a si mesmo mostraria até onde podia ir sua humildade. Dos seus temores e covardia enchera de sobra os ouvidos do confessor, que no fim lhe aconselhava exercícios e penitências com ar de quem sabe que receita poções inúteis a um doente crônico.”

(CALLADO, A. Quarup. 12. ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1984, p. 76.)


Mar morto – Jorge Amado

“Lívia espera e é bela nessa espera, ela é a mulher mais bela da beira do cais e desse saveiro. Nenhum mestre de saveiro tem uma mulher como Guma. Todos dizem isso e sorriem todos para ela. Todos gostariam de tê-la nos braços musculosos das travessias. Mas ela é somente de Guma, casou foi com ele na igreja de Monte Serrat, onde se casam os pescadores, os canoeiros e os mestres de saveiro. Mesmo marinheiros que vinham por mares longínquos, em paquetes enormes, vêm casar na igreja de Monte Serrat, que é a igreja deles, trepada no morro, dominando o mar. Ela casou ali, com Guma, era desde então, nas noites do cais, no seu saveiro, nos quartos do “Farol das Estrelas”, na areia do cais, eles se amam, confundem os corpos sobre o mar e sob a lua.”

(AMADO, J. Mar morto. Rio de Janeiro: Companhia das Letras, 2012, p. 21.)


O rei de ferro (série Os reis malditos) – Maurice Druon

“Os homens chamados a representar papel decisivo na história dos povos ignoram, na maior parte das vezes, quais os destinos que neles se encarnam. Duas personagens que saíam daquela longa entrevista, numa tarde de março de 1314, no Castelo de Westminster, não podiam imaginar que, pelo encadeamento de seus atos, viriam a ser os artífices, quase os únicos artífices, de uma guerra entre os reinos da França e da Inglaterra, guerra que duraria mais de cem anos.”

(DRUON, M. O rei de ferro. Tradução de Homero Silveira. São Paulo: Círculo do Livro, 1990, p. 28.)


Angélica, Marquesa dos Anjos (série Angélica) – Anne e Serge Golon

“Na noite do terceiro dia, ao inclinar-se por curiosidade sobre o berço em que dormia o filho, Angélica reconheceu um semblante de traços cinzelados que às vezes lhe havia revelado o perfil intato de seu marido, Joffrey. Imaginou um sabre cruel caindo sobre aquela carinha de anjo, o corpo gracioso atirado por uma janela, quebrado na neve sobre a qual choviam chamas. A visão foi tão nítida que ela deu um grito de horror.”

(GOLON, A; S. Angélica, Marquesa dos Anjos. Tradução de Hugo Bellard. São Paulo: Círculo do Livro, 1986, p. 289.)


O dia do Chacal – Frederick Forsyth

“Goossens sentiu um sobressalto. Olhou para o inglês e uma serpente de medo se lhe contorceu nas entranhas. Tinha enfrentado muitos dos homens mais temíveis do mundo do crime belga, quando iam procurá-lo para conseguir alguma arma especial ou simplesmente um Colt comum. Eram homens duros. Mas havia um traço distante e implacável naquele homem do outro lado Mar do Norte que pretendia matar uma pessoa importante bem protegida.”

(FORSYTH, F. O dia do Chacal. 23. ed. Tradução Pinheiro de Lemos. Rio de Janeiro: Record, 2003, p. 75.)


A dança dos dragões (série As crônicas de gelo e fogo) – George R. R. Martin

“Os dothrakis eram sábios no que dizia respeito a cavalos, mas podiam ser completamente tolos em relação a outras coisas. Além disso, são apenas garotas. Suas servas estavam havia muito tempo com ela; mulheres crescidas se olhasse para elas, com cabelos negros, pele cor de cobre e olhos amendoados, mesmo assim meninas. Elas lhe haviam sido dadas quando se casara com Khal Drogo. E foi Khal Drogo quem lhe dera a pele que vestia agora, a cabeça e o couro de hrakkar, o leão branco do mar dothraki. Era muito grande e tinha um cheiro de mofo, mas a fazia sentir como se seu sol-e-estrelas ainda estivesse perto dela.”

(MARTIN, G. R. R. A dança dos dragões. Tradução de Marcia Blasques. São Paulo: Leya, 2012, p. 34. As crônicas de gelo e fogo, livro 5.)

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