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Crônica, conto e miniconto • Escrever bem #7

Crônicas e contos podem ser bastante parecidos e justamente por isso há quem os confunda, pensando serem a mesma coisa, o que não é verdade. Cada um tem características próprias, que os tornam bem diferentes quando olhamos de perto.

A crônica é uma narrativa curta, ficcional ou não, geralmente ambientada em um único espaço narrativo (local onde se passa). Sua principal característica é transmitir alguma reflexão crítica ou ensinamento a respeito da vida cotidiana.

O conto, por sua vez, é também uma narrativa curta, porém mais longa do que a crônica. Tem começo, meio e fim e apresenta somente um conflito, um desenvolvimento e uma ação. Tem poucos personagens, pode ser narrado em terceira ou em primeira pessoa (ponto de vista) e pode utilizar os tempos passado, presente ou futuro.

O miniconto é, digamos, “um conto em miniatura”, pois a narrativa não deve, em geral, ultrapassar o limite de 150 caracteres. Enquanto o conto narra uma pequena história completa, o miniconto apenas a sugere, cabendo ao leitor imaginar a trama a partir do que o miniconto suscita.

A literatura brasileira tem exemplos de grandes cronistas e/ou contistas, muitos deles também romancistas.

Cronistas famosos: Machado de Assis, Lima Barreto, João do Rio, Cecília Meireles, Rubem Braga, Nelson Rodrigues, Paulo Mendes Campos, Clarice Lispector, Carlos Drummond de Andrade, Vinicius de Moraes.

Contistas famosos: Machado de Assis, Murilo Rubião, Álvares de Azevedo, J. J. Veiga, Dalton Trevisan, Clarice Lispector, Jerônymo Monteiro, Rubem Fonseca, Cora Coralina, Osman Lins.

Quanto ao miniconto, vários escritores se aventuraram nesse universo. Alguns deles: Dalton Trevisan, Lygia Fagundes Teles, João Gilberto Noll, Menalton Braff.

A beleza desses tipos de narrativa reside no fato de todas serem capazes de provocar ideias, reflexões, sonhos, dramas, medo, risos e lágrimas utilizando pouco texto, o que, sem dúvida, evidencia o enorme talento de seus autores. Aqui, com certeza, mais uma vez podemos dizer que menos é mais.

Exemplos de crônica, conto e minicontos

A tartaruga – Rubem Braga (crônica)

“Moradores de Copacabana, comprai vossos peixes na Peixaria Bolívar, Rua Bolívar, 70, de propriedade do Sr. Francisco Mandarino. Porque eis que ele é um homem de bem.
O caso foi que lhe mandaram uma tartaruga de cerca de cento e cinquenta quilos, dois metros e (dizem) duzentos anos, a qual ele expôs em sua peixaria durante três dias e não quis vender; e levou até a praia, e a soltou no mar.
Havia um poeta dormindo dentro do comerciante, e ele reverenciou a vida e a liberdade na imagem de uma tartaruga.
Nunca mateis a tartaruga.
Uma vez, na casa de meu pai, nós matamos uma tartaruga. Era uma grande, velha tartaruga-do-mar que um compadre pescador nos mandara para Cachoeiro.
Juntam-se homens para matar uma tartaruga, e ela resiste horas. Cotam-lhe a cabeça, ela continua a bater as nadadeiras. Arrancam-lhe o coração, ele continua a pulsar. A vida entranhada nos seus tecidos com uma teimosia que inspira respeito e medo. Um pedaço de carne cortado, jogado ao chão, treme sozinho, de súbito. Sua agonia é horrível e insistente como um pesadelo.
De repente os homens param e se entreolham, com o vago sentimento de estar cometendo um crime.
Moradores de Copacabana, comprai vossos peixes na Peixaria Bolívar, de Francisco Mandarino, porque nele, em um momento belo de sua vida vulgar, o poeta venceu o comerciante. Porque ele não matou a tartaruga.”

(BRAGA, R. A tartaruga. In: ______. Ai de Ti, Copacabana! Rio de Janeiro: Editora do Autor, 1960, p. 175-176. Também disponível em: https://contobrasileiro.com.br/a-tartaruga-cronica-de-rubem-braga/. Acesso em: 10 maio 2019.


O Gringo – Dalton Trevisan (conto)

“O Gringo aportou na ilha há uns vinte anos. Grande cabeça leonina. Baixo e parrudo. Barba branca esvoaçante.
Aventureiro, tinha feito de tudo. Mergulhador nos Mares do Sul à cata de pérolas. Três anos serviu na Legião Estrangeira. Caçador profissional em safáris na África. Nas paredes de sua casa, peles de leão e zebra. Cabeças de búfalo e rinoceronte.
É lá da Baviera. Ora, para os alemães, os bávaros são verdadeiros bárbaros. Deles é a dionisíaca Oktoberfest. E o nosso Rudolf seria o famoso javali selvagem das suas matas. Viciado em bebida, charuto, mulher gorda. Qualquer mulher.
A ilha é bastante isolada, com pequenas aldeias separadas por montanhas rochosas e terrenos agrestes. Quem tem plantação é porque trabalhou muito e duramente. Ele cultiva abacaxis.” [continua…]

(TREVISAN, D. Rita Ritinha Ritona. Rio de Janeiro: Record, 2005, p. 33.) 


 Minicontos

“Olha, Pai, eu tentei, mas acho que não deu muito certo não…”

(Antônio Prata)

“A velha insônia tossiu três da manhã.”

(Dalton Trevisan)

“Vende-se: sapatinhos de bebê nunca usados.”

(Ernest Hemingway)

“Uma gaiola saiu à procura de um pássaro.”

(Franz Kafka)

“Fui me confessar ao mar. O que ele disse? Nada.”

(Lygia Fagundes Telles)

“Escrever é ter pontaria. Em outras palavras: é pegar pelo rabo o lapso do bom senso e não soltá-lo enquanto perdurar com frescor e ânimo o anseio lúdico, ritualístico. É isso, eu acho: escrever é alegria.”

(João Gilberto Noll)

Disponíveis em:

https://www.revistabula.com/1787-30-contos-de-ate-100-caracteres/. Acesso em: 10 maio 2019.
https://www.nexojornal.com.br/expresso/2017/03/29/5-minicontos-para-conhecer-a-obra-de-Jo%C3%A3o-Gilberto-Noll. Acesso em: 10 maio 2019.

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