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Para escrever bem, simplicidade é o primeiro passo • Escrever bem #3

Há quem acredite que para escrever bem é preciso escrever “difícil”, ou seja, usando linguagem rebuscada e palavras complicadas, cujos significados poucos conhecem ou ouviram falar. No entanto, isso não é verdade. Existem belíssimos textos, que foram escritos com a mais absoluta simplicidade e se tornaram verdadeiros clássicos, reunindo uma multidão de fãs ao longo do tempo.

Acima de tudo, acredito que escrever é transformar em palavras o que grita o nosso coração. Seja em um livro de química ou em um romance de amor, cada autor colocou ali um pouco de sua essência, um pouco daquilo em que acredita. O autor de um livro de química certamente está compartilhando seu conhecimento com leitores e estudantes, enquanto o romancista está compartilhando uma história que poderá ensinar belas lições de vida, fazer sonhar ou divertir. Ambos, no entanto, embora escrevam sobre assuntos muito diferentes, têm o mesmo objetivo.

O primeiro passo para quem quer escrever, penso eu, é ter/desenvolver o hábito da leitura, como escrevi no post #2 desta série. O segundo é dar a si mesmo a chance de expressar as próprias ideias sem qualquer tipo de censura, crítica ou exigência excessiva. Então, pensando nisso, seja simples ao começar a escrever. Diga exatamente o que está pensando, seja qual for o tema. Ocupe-se em expressar principalmente o que deseja dizer ao mundo e aos seus leitores.

Quem é o seu leitor?
Qual é o objetivo da sua escrita?
Qual é a sua mensagem?

Sejam quais forem as respostas para essas perguntas, o principal é começar pelo primeiro degrau, que eu considero ser a simplicidade. Afinal, menos é mais — também na literatura.

Seguem mais alguns trechos de livros que eu amo, cuja genial simplicidade é verdadeiramente encantadora, pois diz exatamente o que precisamos entender!

Fernão Capelo Gaivota – Richard Bach

“Era de manhã e o novo Sol cintilava nas rugas de um mar calmo. A dois quilômetros da costa, um barco de pesca acariciava a água. Subitamente, os gritos do Bando da Alimentação relampejaram no ar e despertaram um bando de mil gaivotas, que se lançou precipitadamente na luta pelos pedacinhos de comida. Amanhecia um novo dia de trabalho. Mas lá ao fundo, sozinho, longe do barco e da costa, Fernão Capelo Gaivota treinava. A trinta metros da superfície azul brilhante, baixou os seus pés com membranas, levantou o bico e tentou a todo custo manter suas asas numa dolorosa curva.”

(BACH, R. Fernão Capelo Gaivota. 3. ed. Rio de Janeiro: Record, 2017, p. 4.)


O menino no espelho – Fernando Sabino

“Quando chovia, no meu tempo de menino, a casa virava um festival de goteiras. Eram pingos do teto ensopando o soalho de todas as salas e quartos. Seguia-se um corre-corre dos diabos, todo mundo levando e trazendo baldes, bacias, panelas, penicos e o mais que houvesse para aparar a água que caía e para que os vazamentos não se transformassem numa inundação. Os mais velhos ficavam aborrecidos, eu não entendia a razão: aquilo era uma distração das mais excitantes.”

(SABINO, F. O menino no espelho. 7. ed. Rio de Janeiro: Record, 1982, p. 13.)


O menino do dedo verde – Maurice Druon

“Os cabelos de Tistu eram louros e crespos na ponta. Como raios de sol que terminassem num pequeno cacho ao tocar na terra. Tistu tinha grandes olhos azuis e faces rosadas e macias. Todo mundo o beijava. Porque as pessoas grandes, sobretudo de nariz grande, rugas na testa e cabelo no ouvido, estão sempre beijando as criancinhas de face macia e rosada. Eles dizem que as crianças gostam, e isto é outra das ideias que inventaram. Porque são eles, os grandes, que gostam, e as crianças de face macia e rosada são muito boazinhas em prestar-se a isso.”

(DRUON, M. O menino do dedo verde. 109. ed. Rio de Janeiro: José Olympio, 2017, p. 13.)


Noites em claro – Júlio Emílio Braz

“Acordei suando frio. Meu coração batia forte. O sangue corria tão depressa nas veias que, ao olhar para meu braço direito, tive a impressão de ver as veias engrossarem e pulsarem como se fossem enormes serpentes rumando rapidamente para minha cabeça, ansiosas para devorar meus neurônios, e com eles a pouca sanidade que eu ainda tinha. Não parava de tremer. Tentei. Agarrei-me ao braço com raiva e com medo, mas era impossível controlar o que quer que estivesse acontecendo com ele.”

(BRAZ, J. E. Noites em claro. Contagem: Santa Clara, 2001, p. 22.)


A ditadura da beata – Lourenço Cazarré

“O Quincas tem pinta de poeta. É magro, meio corcunda, pálido e míope. Ou seja, de maneira nenhuma tem o físico dos heróis das revistas em quadrinhos e da tevê. Mas é cabeçudo e vai sempre em frente. Não por ser corajoso, mas por ter uma espécie de faro especial que o conduz direto, sem escalas, às maiores encrencas.”

(CAZARRÉ, L. A ditadura da beata. 2 ed. São Paulo: Atual, 1991, p. 7.)

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